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Caxias e suas batalhas

07 de abril de 2002

Por: Eziquio Barros Neto

" Certa vez, perguntei para um cidadão quem foi Gonçalves Dias ou o que foi a revolta da Balaiada ? "Já ouvi falar" foi a resposta que ouvi na praça que leva o nome do poeta. Isso mesmo meus amigos, na própria cidade de Caxias. Pasmem novamente!".

  Caxias, a princesa do sertão, terra de Gonçalves Dias. Cidade tradicional de grandes histórias e nomes da literatura maranhense. Você com certeza conhece a cidade de Caxias por essas denominações. Mas Caxias faz “jus” a esses títulos? A resposta é não. O que está faltando em Caxias? Para mim, falta, sobretudo amor pela terra. 

   Infelizmente Gonçalves Dias, o filho mais querido dessa terra é o mais injustiçado. Patrono da cadeira nº 15, da Academia Brasileira de Letras; da de nº 9 da, Academia Maranhense de Letras; e de mais três academias, além de vários cargos. Um dos maiores poetas da literatura brasileira. Logo ele que tanto amou sua terra natal, como a divulgou em vários poemas, possui apenas uma praça em sua homenagem. Uma grande homenagem sem dúvida. A capital São Luis também possui uma praça com o nome do poeta. Mas Caxias é sua cidade natal.

    Em conversa com um amigo na Internet, ele ficou impressionado com o relaxo que o poeta Gonçalves Dias é tratado na cidade. Não há um museu em sua memória, nem outra fonte de informação em que alguém possa se aprofundar sobre a sua vida e obra. O estabelecimento comercial que seu pai tinha e que Gonçalves Dias morou quando jovem, esse nem se fala. O setor imobiliário tomou de conta. Não existe mais.

    Falando em casarões antigos, Caxias quase passa desapercebido. O comércio tomou de conta e faz da fachada o que bem entende. Ninguém sabe ao certo as histórias de seus antigos prédios.

    E a Balaiada, então? Caxias guarda um tesouro precioso sobre essa revolta do Maranhão. Guarda? As ruínas da Balaiada encontram-se como uma casa velha, abandonada no centro da cidade. Você já viu alguma obra, projeto para a manutenção do "tesouro"? Verdade é que se tentou reconstruir o antigo quartel. Seria ótimo, mas devido à conturbada vida política caxiense, o projeto encontra-se abandonado.

    E antes da reconstrução do quartel? A situação só piorava. A porta que sobrou em uma parte da ruína, caiu. Sim, caiu mesmo e, pasmem, ficou assim por muito tempo. Como pode ter caído? Bem, primeiro porque as ruínas não têm proteção nenhuma, a não ser uma cerca de madeira de mais ou menos 60 centímetros de altura. Segundo, porque o patrimônio servia mesmo era para a criançada jogar bola em seu terreno.

   Particularmente não defendo a reconstrução do quartel sobre as ruínas. Para quê? Para virar mais um prédio vazio? As ruínas criam um charme a mais na cidade, chamando a atenção de quem passa. Mas do jeito que se encontram não durará muito tempo. O que os revoltosos balaios tentaram, o descaso do caxiense vai conseguir, que é derrubar o antigo quartel.

   Mas botar a culpa nos caxienses? Sim, porque o patrimônio é de responsabilidade nossa. Ele pertence ao povo de Caxias e a história do Maranhão. Se não fizermos nada, quem fará? Mas a culpa não jogo toda na sociedade caxiense.

   Certa vez, perguntei para um cidadão quem foi Gonçalves Dias ou o que foi a revolta da Balaiada ? "Já ouvi falar" foi a resposta que ouvi na praça que leva o nome do poeta. Isso mesmo meus amigos, na própria cidade de Caxias. Pasmem novamente!... Deveria ser uma obrigação curricular, em todas as escolas caxienses, o estudo da história da cidade. Não somente em Caxias, mas em todos as outras cidades maranhenses, para que cada um saiba do seu passado.

   Descendo mais pelas ruas de Caxias, encontram-se as igrejas centenárias e suas lendas. A Igreja do Rosário é um exemplo, segundo o historiador César Marques (outro importante poeta caxiense jogado ao esquecimento), por volta de 1775 já se encontrava erguida como capela. A igreja não foi tombada como patrimônio, assim como as ruínas da Balaiada também. O processo de tombamento não foram concluídos por falta de materiais e informações.
 Garanto a vocês que a culpa não é do IPHAN ( Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ). Lembro-me que há três anos, em contato comigo, através do site de Caxias, um historiador do IPHAN pediu-me essas informações pendentes. O mesmo historiador tentou com a Prefeitura, mas achou que apoio do site seria mais fácil.

   Não nos esquecemos também dos filhos ilustres da "Princesa", como o já citado César Marques, onde fez uma importante obra sobre a história do Maranhão. E o que falar então de Coelho Neto? Teófilo Dias? Ricardo Leão Sabino? Vespasiano Ramos? Afonso Cunha? Dias Carneiro e outras figuras que formam o panteon caxiense? Esses imortais hoje beiram o esquecimento.

   Mas Caxias não é só conhecida por seus poetas e pela Balaiada, mas também pelos seus recursos naturais. Devo imaginar que o leitor deva está pensando: "Bem, pelo menos esses a cidade zela!". Sinto decepcioná-lo, caro leitor, mas também não escapam. O rio Itapecuru pede socorro. O balneário Veneza existe na lembrança dos "bons tempos aquele". A Maria do Rosário e Inhamum idem. Nem o pequeno riacho "Primavera" escapa. Está desaparecendo, segundo alguns, porque caminhões vem retirar areia para a construção civil. O riacho "Primavera" era um dos lugares mais bonitos de Caxias. Hoje irreconhecível.

   Caxias, a princesa do Sertão, a terra de Gonçalves Dias, de tantos outros grandes poetas, na verdade está precisando é de cuidados. Mas, para mim, o que falta mesmo é amor pela terra. Muito mais amor pela nossa terra.

* Editado no jornal O Estado do Maranhão, no domingo 14/04/2002 na seção 'Opinião'.

 

 

 

 

 
 

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