| " Certa
vez, perguntei para um cidadão quem foi Gonçalves
Dias ou o que foi a revolta da Balaiada ? "Já
ouvi falar" foi a resposta que ouvi na praça
que leva o nome do poeta. Isso mesmo meus amigos,
na própria cidade de Caxias. Pasmem novamente!". |
Caxias,
a princesa do sertão, terra de Gonçalves Dias. Cidade
tradicional de grandes histórias e nomes da literatura
maranhense. Você com certeza conhece a cidade de Caxias
por essas denominações. Mas Caxias faz “jus” a esses
títulos? A resposta é não. O que está faltando em Caxias?
Para mim, falta, sobretudo amor pela terra.
Infelizmente Gonçalves Dias, o filho mais
querido dessa terra é o mais injustiçado. Patrono da
cadeira nº 15, da Academia Brasileira de Letras; da
de nº 9 da, Academia Maranhense de Letras; e de mais
três academias, além de vários cargos. Um dos maiores
poetas da literatura brasileira. Logo ele que tanto
amou sua terra natal, como a divulgou em vários poemas,
possui apenas uma praça em sua homenagem. Uma grande
homenagem sem dúvida. A capital São Luis também possui
uma praça com o nome do poeta. Mas Caxias é sua cidade
natal.
Em conversa com um amigo na Internet,
ele ficou impressionado com o relaxo que o poeta Gonçalves
Dias é tratado na cidade. Não há um museu em sua memória,
nem outra fonte de informação em que alguém possa se
aprofundar sobre a sua vida e obra. O estabelecimento
comercial que seu pai tinha e que Gonçalves Dias morou
quando jovem, esse nem se fala. O setor imobiliário
tomou de conta. Não existe mais.
Falando em casarões antigos, Caxias
quase passa desapercebido. O comércio tomou de conta
e faz da fachada o que bem entende. Ninguém sabe ao
certo as histórias de seus antigos prédios.
E a Balaiada, então? Caxias guarda
um tesouro precioso sobre essa revolta do Maranhão.
Guarda? As ruínas da Balaiada encontram-se como uma
casa velha, abandonada no centro da cidade. Você já
viu alguma obra, projeto para a manutenção do "tesouro"?
Verdade é que se tentou reconstruir o antigo quartel.
Seria ótimo, mas devido à conturbada vida política caxiense,
o projeto encontra-se abandonado.
E antes da reconstrução do quartel?
A situação só piorava. A porta que sobrou em uma parte
da ruína, caiu. Sim, caiu mesmo e, pasmem, ficou assim
por muito tempo. Como pode ter caído? Bem, primeiro
porque as ruínas não têm proteção nenhuma, a não ser
uma cerca de madeira de mais ou menos 60 centímetros
de altura. Segundo, porque o patrimônio servia mesmo
era para a criançada jogar bola em seu terreno.
Particularmente não defendo a reconstrução
do quartel sobre as ruínas. Para quê? Para virar mais
um prédio vazio? As ruínas criam um charme a mais na
cidade, chamando a atenção de quem passa. Mas do jeito
que se encontram não durará muito tempo. O que os revoltosos
balaios tentaram, o descaso do caxiense vai conseguir,
que é derrubar o antigo quartel.
Mas botar a culpa nos caxienses? Sim, porque
o patrimônio é de responsabilidade nossa. Ele pertence
ao povo de Caxias e a história do Maranhão. Se não fizermos
nada, quem fará? Mas a culpa não jogo toda na sociedade
caxiense.
Certa vez, perguntei para um cidadão quem
foi Gonçalves Dias ou o que foi a revolta da Balaiada
? "Já ouvi falar" foi a resposta que ouvi
na praça que leva o nome do poeta. Isso mesmo meus amigos,
na própria cidade de Caxias. Pasmem novamente!... Deveria
ser uma obrigação curricular, em todas as escolas caxienses,
o estudo da história da cidade. Não somente em Caxias,
mas em todos as outras cidades maranhenses, para que
cada um saiba do seu passado.
Descendo mais pelas ruas de Caxias, encontram-se
as igrejas centenárias e suas lendas. A Igreja do Rosário
é um exemplo, segundo o historiador César Marques (outro
importante poeta caxiense jogado ao esquecimento), por
volta de 1775 já se encontrava erguida como capela.
A igreja não foi tombada como patrimônio, assim como
as ruínas da Balaiada também. O processo de tombamento
não foram concluídos por falta de materiais e informações.
Garanto a vocês que a culpa não é do IPHAN ( Instituto
do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional ). Lembro-me
que há três anos, em contato comigo, através do site
de Caxias, um historiador do IPHAN pediu-me essas informações
pendentes. O mesmo historiador tentou com a Prefeitura,
mas achou que apoio do site seria mais fácil.
Não nos esquecemos também dos filhos ilustres
da "Princesa", como o já citado César Marques,
onde fez uma importante obra sobre a história do Maranhão.
E o que falar então de Coelho Neto? Teófilo Dias? Ricardo
Leão Sabino? Vespasiano Ramos? Afonso Cunha? Dias Carneiro
e outras figuras que formam o panteon caxiense? Esses
imortais hoje beiram o esquecimento.
Mas Caxias não é só conhecida por seus
poetas e pela Balaiada, mas também pelos seus recursos
naturais. Devo imaginar que o leitor deva está pensando:
"Bem, pelo menos esses a cidade zela!". Sinto
decepcioná-lo, caro leitor, mas também não escapam.
O rio Itapecuru pede socorro. O balneário Veneza existe
na lembrança dos "bons tempos aquele". A Maria
do Rosário e Inhamum idem. Nem o pequeno riacho "Primavera"
escapa. Está desaparecendo, segundo alguns, porque caminhões
vem retirar areia para a construção civil. O riacho
"Primavera" era um dos lugares mais bonitos
de Caxias. Hoje irreconhecível.
Caxias, a princesa do Sertão, a terra de
Gonçalves Dias, de tantos outros grandes poetas, na
verdade está precisando é de cuidados. Mas, para mim,
o que falta mesmo é amor pela terra. Muito mais amor
pela nossa terra.
* Editado no jornal O
Estado do Maranhão, no domingo 14/04/2002 na seção 'Opinião'.
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