| "Sol não
sonha com jóias, riqueza, vida fácil nem glamour.
Ela só quer trabalhar honestamente e receber um
pagamento justo por isso, de modo que possa viver
com dignidade e a certeza de que não perderá tudo
no dia seguinte." |
| É inegável
a magia que a novela brasileira leva aos milhares
de lares de nosso país. Transcende a telinha nacional
e leva nossa cultura e tradição a milhares de telespectadores
no mundo inteiro. |
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Segundo Stanislaw Ponte
Preta, a TV é uma "maquina de fazer doido".
A novela se transformou em um grande instrumento capaz
de formar opiniões em massa, fazer marqueting e cada
vez nos alienar sem um senso ético.
Deixamos de ler jornais
e revistas e acompanhamos tudo pela TV. Deixamos de
ler livros e nos emocionamos em romances televisivos
que são verdadeiros melodramas populares (quanto mais
ibope mais lucro em comerciais) e deixado de lado nossas
referencias literais, usufruída por poucos.
Quando vi o anuncio do "novo fenômeno"
da TV brasileira, a novela América, e que o tema era
a fuga de brasileiros para os EUA, fui refletindo e
questionando o nacionalismo do povo brasileiro diante
das nossas questões sociais. O que a Rede Globo está
fazendo para essa parcela da população é minar nosso
desejo de querer mudar a realidade e viver em mundo
de sonhos.
A história é a seguinte: uma moça que cresce
com um único desejo: mudar do Brasil, um pais
de terceiro mundo de grandes injustiças sociais em busca
de felicidade nos Estado Unidos, o pais da democracia
e oportunidades.
O que a novela passa para o telespectador (principalmente
para a classe baixa) é que o pais não tem jeito. O cidadão
não pode mudar a situação que ele se encontra e tenta
se refugiar em um mundo individualista. Individualista
no ponto em que a personagem abandona a realidade de
seu povo e vai buscar a felicidade em uma outra cultura,
voltada ao capitalismo explorador dos EUA.
"Sol (nome da personagem interpretada pela
atriz Deborah Secco ) nascida e criada em uma favela
do Rio de Janeiro, tem sua casa destruída pela justiça
(O grande Vilão) o que a deixou traumatizada. "A
experiência a fez acreditar que, no Brasil, pobre não
tem vez." Isso está escrito no site da novela,
Acredite! pode conferir. E o site continua com a sinopse:
“E é por isso que ela sonha se mudar para os EUA, onde
ela acredita que as oportunidades são iguais para todos,
ricos ou pobres". Não contente por desestimular
nosso sonho de mudança, a Rede Globo continua: "Sol
não sonha com jóias, riqueza, vida fácil nem glamour.
Ela só quer trabalhar honestamente e receber um pagamento
justo por isso, de modo que possa viver com dignidade
e a certeza de que não perderá tudo no dia seguinte."
Obvio que vivemos em tempos difíceis no Brasil,
onde crimes e seqüestros são mais freqüentes. Mas fugir
dos debates da situação em que nos encontramos só dificulta
mais a discussão com a sociedade brasileira.
A novela vai além das desigualdades sociais.
A protagonista Sol é o retrato da camada mais pobre,
que sofre por não ter roupa da moda, carro do ano, e
busca isso no país que é referência do consumismo do
mundo. O Brasil também é um pais de sonhos. Temos recursos
que nos destaca como um dos mais poderosos da América
Latina.
No momento que entramos no século XXI e elegemos
para nosso governante um nordestino, que fugiu da seca,
virou operário e se tornou presidente, a novela América
é um retrocesso na cultura das TVs que já teve obras
importantes como a novela Roque Santeiro, que denunciava
o coronelismo no interior do Brasil e até mesmo a sátira
O Bem Amado.
Já imaginou se a Sol, ao invés de fugir para
os EUA, se revoltasse contra a situação de sua comunidade
e partisse para a luta em busca de mais educação? Se
ela não fosse atendida em um hospital e fosse a mídia
em busca de seus direitos? Se ela levantasse a bandeira
de igualdades de classes e buscasse o seu sonho aqui
mesmo no Brasil? Essa não seria a "oportuni - dades
iguais para todos, ricos e pobres" em que Sol sonha
e ela vai buscar nos EUA ? Será se a Rede Globo pensou
nesse enredo?
A musica "Soy Loco por ti, América"
foi composta pelo poeta Capinam quando soube da morte
do líder latino-americano Che Guevara, e resolveu exaltar
a luta pela América. Na novela, a musica serve como
trilha sonora da anti-nacionalidade.
Enquanto isso, milhares de TVs brasileiras são
contaminadas com essa falsa ilusão de que no Brasil
não é possível lutar pelos seus direitos. E a população,
sentada em um sofá, vai enfraquecendo suas esperanças
esperando que um dia caia do céu uma revolução e mude
completamente suas vidas.
Então me pergunto: O que devemos fazer? Acho
que devemos começar desligando a "Maquina de fazer
doido" e ler um bom livro.
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