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Soy loco por ti America?

14 de abril de 2005

Por: Eziquio Barros Neto

"Sol não sonha com jóias, riqueza, vida fácil nem glamour. Ela só quer trabalhar honestamente e receber um pagamento justo por isso, de modo que possa viver com dignidade e a certeza de que não perderá tudo no dia seguinte."
É inegável a magia que a novela brasileira leva aos milhares de lares de nosso país. Transcende a telinha nacional e leva nossa cultura e tradição a milhares de telespectadores no mundo inteiro.

Segundo Stanislaw Ponte Preta, a TV é uma "maquina de fazer doido". A novela se transformou em um grande instrumento capaz de formar opiniões em massa, fazer marqueting e cada vez nos alienar sem um senso ético.

Deixamos de ler jornais e revistas e acompanhamos tudo pela TV. Deixamos de ler livros e nos emocionamos em romances televisivos que são verdadeiros melodramas populares (quanto mais ibope mais lucro em comerciais) e deixado de lado nossas referencias literais, usufruída por poucos.

  Quando vi o anuncio do "novo fenômeno" da TV brasileira, a novela América, e que o tema era a fuga de brasileiros para os EUA, fui refletindo e questionando o nacionalismo do povo brasileiro diante das nossas questões sociais. O que a Rede Globo está fazendo para essa parcela da população é minar nosso desejo de querer mudar a realidade e viver em mundo de sonhos.

  A história é a seguinte: uma moça que cresce com um único desejo: mudar do  Brasil, um pais de terceiro mundo de grandes injustiças sociais em busca de  felicidade nos Estado Unidos, o pais da democracia e oportunidades.

  O que a novela passa para o telespectador (principalmente para a classe baixa) é que o pais não tem jeito. O cidadão não pode mudar a situação que ele se encontra e tenta se refugiar em um mundo individualista. Individualista no ponto em que a personagem abandona a realidade de seu povo e vai buscar a felicidade em uma outra cultura, voltada ao capitalismo explorador dos EUA.

  "Sol (nome da personagem interpretada pela atriz Deborah Secco ) nascida e criada em uma favela do Rio de Janeiro, tem sua casa destruída pela justiça (O grande Vilão) o que a deixou traumatizada. "A experiência a fez acreditar que, no Brasil, pobre não tem vez." Isso está escrito no site da novela, Acredite! pode conferir. E o site continua com a sinopse: “E é por isso que ela sonha se mudar para os EUA, onde ela acredita que as oportunidades são iguais para todos, ricos ou pobres". Não contente por desestimular nosso sonho de mudança, a Rede Globo continua: "Sol não sonha com jóias, riqueza, vida fácil nem glamour. Ela só quer trabalhar honestamente e receber um pagamento justo por isso, de modo que possa viver com dignidade e a certeza de que não perderá tudo no dia seguinte."

  Obvio que vivemos em tempos difíceis no Brasil, onde crimes e seqüestros são mais freqüentes. Mas fugir dos debates da situação em que nos encontramos só dificulta mais a discussão com a sociedade brasileira.

  A novela vai além das desigualdades sociais. A protagonista Sol é o retrato da camada mais pobre, que sofre por não ter roupa da moda, carro do ano, e busca isso no país que é referência do consumismo do mundo. O Brasil também é um pais de sonhos. Temos recursos que nos destaca como um dos mais poderosos da América Latina.

  No momento que entramos no século XXI e elegemos para nosso governante um nordestino, que fugiu da seca, virou operário e se tornou presidente, a novela América é um retrocesso na cultura das TVs que já teve obras importantes como a novela Roque Santeiro, que denunciava o coronelismo no interior do Brasil e até mesmo a sátira O Bem Amado.

  Já imaginou se a Sol, ao invés de fugir para os EUA, se revoltasse contra a situação de sua comunidade e partisse para a luta em busca de mais educação? Se ela não fosse atendida em um hospital e fosse a mídia em busca de seus direitos? Se ela levantasse a bandeira de igualdades de classes e buscasse o seu sonho aqui mesmo no Brasil? Essa não seria a "oportuni - dades iguais para todos, ricos e pobres" em que Sol sonha e ela vai buscar nos EUA ? Será se a Rede Globo pensou nesse enredo?

  A musica "Soy Loco por ti, América" foi composta pelo poeta Capinam quando soube da morte do líder latino-americano Che Guevara, e resolveu exaltar a luta pela América. Na novela, a musica serve como trilha sonora da anti-nacionalidade.

  Enquanto isso, milhares de TVs brasileiras são contaminadas com essa falsa ilusão de que no Brasil não é possível lutar pelos seus direitos. E a população, sentada em um sofá, vai enfraquecendo suas esperanças esperando que um dia caia do céu uma revolução e mude completamente suas vidas.

  Então me pergunto: O que devemos fazer? Acho que devemos começar desligando a "Maquina de fazer doido" e ler um bom livro.

 

 

 

 

 
 

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